esse é o som que escreve
Sobre o livro:
O segundo livro de ficção de Fernanda Leal, coloca no “mas” o apelo pela vida. Se de um lado a palavrinha de três letras é posta em serviço para ideias antagônicas, por outro, se presta, justamente, a corroborar a sentença anterior. É dessa mistura que “esse é o som que escreve” foi feito – já que não há, linha mais inacabada e ambígua, que aquela que tece os acontecimentos de uma vida cotidiana. Mãe, aliás, também têm três letras, assim como Mar.
Um amontoado de memórias que obriga o leitor a mergulhar nas próprias histórias, desafiando-as e imprimindo em cada célula do seu ser, a dúvida sobre o que é, afinal, a realidade? A personagem, contadora de estórias por profissão, se vê na obrigatoriedade de costurar linhas inventadas, na tentativa de aplacar a dor pelas linhas vividas. No que elas, de fato, diferem? Fernanda brinca com nosso senso de verdade, tripudia da vaidade de uma maternidade ideal e nos joga penhasco abaixo, onde apenas o tombo – dilacerante e duro – nos aproxima de algum conceito próximo à noção de existência.
São os gases do próprio corpo que ora a sustentam, ora assassinam o fruto de seu mais dedicado amor. Esse Vento – que todos carregamos do nosso lado de dentro – empresta à personagem a liquefez humana. Nos desfazemos todos, e Fernanda não arreda o pé dessa brutal realidade.
E, se é verdade que um filho morre da doença de sua mãe, o da personagem se afoga em seus tantos nadas. Seus vazios entupidos de sons e comida de verdade, envoltos nesse tanto de carne que um dia foi corpo de mãe que hospeda, antes de ser corpo de mãe que apenas lembra. “Mãe era uma pessoa bem doída”, nos conta a personagem – até que virou Mãe, também.
Jéssica Pozzebon
Sobre a autora:
Fernanda Leal é psicanalista, editora, escritora e artista visual. Formada em psicologia. Mestre (2010) e Doutora (2018) em Família na Sociedade Contemporânea (Ucsal), de onde surgiram seus dois primeiros livros: “O pai: uma função em declínio” (2017) e “A tristeza comum da mãe” (2019); há cerca de 5 anos (2020), iniciou um processo de escrita literária, já há muito latente em germinação. Dessa experiência nasceram alguns livros: “Um nome para o silêncio” (2022), pela editora Cas’a, “esse é o som que escreve” (2023) e “na ponta dos dedos” (2024) pela Amitié Casa Editorial, fundada pela própria escritora. Tem ainda dois contos publicados na Flip-off: “Arranjo” (2022) e “O acumulador de silêncio” (2023). Ao lado da escrita, Fernanda desenvolve um trabalho diário que privilegia os tecidos e bordados e vem fazendo desse encontro entre mar, conchas, tecidos, bordados e palavras sua fonte de vida e arte. “A vista só se abre no mar”, escrita tecida na beira, quase a sentir as águas da maré, é fruto desse encontro entre a palavra e o gesto do bordar fragmentos de mar.

